O DILEMA DE DEUS
por Waldemar Janzen
1.0.0 - Um só Mediador
Quem já não passou pelo constrangimento de ser considerado arrogante ou, no mínimo, estupidamente ousado ou intelectualmente míope/mesquinho, por afirmar que só em Cristo Jesus há salvação? Por acaso deixará Deus de considerar a sua busca sincera por outros caminhos, religiões ou profetas? Será que um Deus eterno e de amor não se revelou através de diferentes personagens? Será que as afirmações exclusivistas de 1. Tim. 2,5: "Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem." e Atos 4,12: " E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos." não tem um valor apenas para o cristianismo ou até representam um excesso por parte dos escritores bíblicos?
Afirmações como: "...ESCRITOS NO LIVRO DA VIDA DO CORDEIRO QUE FOI MORTO, DESDE A (ANTES DA) FUNDAÇÃO DO MUNDO! " (Apoc.13,8; Hebreus 1,2; Efésios 1,4) parecem, para dizer o mínimo, à primeira vista, um exagero de expressão.
Será que a queda do homem foi um erro de cálculo da parte de Deus e que Ele teve que inventar o Salvador para corrigir o curso da história de sua criação?
Você tem respostas satisfatórias para estas questões?

2.0.0 - Resumo
A perfeição é parte intrínseca da existência eterna de Deus. A sua pureza/santidade e justiça fazem parte dessa perfeição. Impureza, por menor que seja, é incompatível com o estado de santidade de Deus e exige ser removida da sua comunhão. Depende-se da misericórdia de Deus para, alguém que tenha deficiência de pureza, permanecer na comunhão com ele. No seu ato de misericórdia, Deus não pode deixar de usar meios justos e coerentes para arrancar alguém do destino justo dessa condenação, em decorrência de sua justiça absoluta. O procedimento para arrancar esse alguém dessa condenação não pode ser determinado pelo réu e sim somente pelo próprio autor da misericórdia, Deus. Em outras palavras, o caminho que leva a Deus, só pode ser estabelecido pelo próprio.

2.1.0 - Axiomas
Axioma, segundo o Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, é: Princípio evidente, que não precisa ser demonstrado (e não pode ser demonstrado). Exemplo: 1-infinito. 2- a auto-existência de Deus, etc.
Meu filho Edgard teve certa ocasião uma discussão com a sua professora de matemática sobre o infinito. Pelo fato de necessitarmos, para os motivos conseqüentes, um conceito mais claro sobre a radicalidade do absoluto, é importante refletirmos sobre um análogo, o infinito, visto que esse é mais usual. A ponderação do meu filho era a seguinte: Se o limite de qualquer número divido por infinito é igual a zero, então o limite de infinito dividido por infinito seria igual a um. A professora não concordou, argumentando que depende do tamanho do infinito que você imagina. O maior deles pode tanto ser o numerador como o denominador e por esta razão o limite do quociente de infinitos é indefinido. Meu filho rebateu com o argumento de que não é coerente imaginar o infinito como sendo um número excepcionalmente grande. A verdade é que, sem considerarmos a questão mencionada, não se exprime o infinito com o conceito de grandeza e sim, mais corretamente, como algo absolutamente infindável e intangível.
Creio que nisto também está o equívoco de raciocínio dos protagonistas da teoria sobre os números maiores do que o infinito. (Esta teoria parte da definição: infinito é o conjunto de todos os números inteiros. A teoria sobre os números maiores do que o infinito afirma que todo número inteiro tem infinitos números fracionários/decimais e, portanto, o conjunto de todos os números fracionários do conjunto de todos os números inteiros é maior do que o conjunto de todos os números inteiros, consequentemente, maior do que infinito. Algo como infinito elevado a infinito).
O puro/santo absoluto, posteriormente referido, é intangível, mesmo que pela sucessiva incrementação ou aperfeiçoamento. Não é o resultado de um processo de purificação/ limpeza/depuração durante um tempo infinitamente grande, e sim o estado daquilo ou daquele que nunca fez parte de um estado que pudesse ser aperfeiçoado.

2.1.1 - 1o Axioma: Só o perfeito é eterno
A elite dos físicos nucleares da Europa está concentrada no complexo do maior acelerador de partículas do mundo, localizado sob as montanhas jurássicas ao norte do lago de Genebra, na Suíça. O tio do amigo Volcker Mierecke, é integrante desta elite. Pelas informações desse cientista, a maioria dos seus colegas cientistas são tementes a Deus. Motivo? Reconhecimento de uma realidade que ultrapassa os limites dos campos de pesquisa científica. A matéria, assim se constatou, cessa ao nível atômico. Partículas subatômicas não podem mais ser consideradas como substância, algo palpável mesmo que minúsculo. As partículas subatômicas são entendidas como nódulos de carga elétrica ou eletromagnética, isentos de substância/matéria alguma. O neutron é um nódulo sem carga elétrica, mas quando é desintegrado resulta também em partículas com carga elétrica. A matéria é formada dos agrupamentos ordenados destas partículas amateriais. As partículas subatômicas podem ser postas em movimento, aceleradas, e desintegradas sobre anteparos, resultando em partículas menores. Quanto mais energia/velocidade se aplica a uma partícula subatômica, a um nódulo amaterial, para desintegrá-lo, tanto menores e mais numerosos são os fragmentos subatômicos. Já se catalogou algo acima de 300 partículas subatômicas diferentes. Não há limite para este processo. Os cientistas reconhecem nisto um limite absoluto do conhecimento humano. Um poço sem fundo que conhecimento algum em tempo algum possa desvendar. Este conhecimento é intangível, em termos absolutos, ao ser humano. Um conhecimento reservado a um outro plano. A existência das partículas subatômicas, concluem os físicos nucleares de Genebra, só pode ter origem em um ser supremo. Decorrente desta constatação, humildemente reconhecem o seu limite de conhecimento. Isto confirma a colocação do apóstolo Paulo em Romanos 1, 19-20: "Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis;".
Com este conhecimento fica mais fácil entender a palavra criadora de Deus: Haja luz, haja isto e aquilo, etc., (Gên.) e também a passagem bíblica de que: "Mas os céus e a terra que existem pela mesma palavra se reservam como tesouro,..." (2. Pedro 3,7). Tudo é sustentado pela Palavra de Deus: " O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder,..."( Hebreus 1,3 ). Ele chamou todas as coisas à existência. As coisas materiais são literalmente feito de algo amaterial. Quando Deus revogar a sua Palavra de sustentação sobre a realidade amaterial, fundação da matéria, o mundo material entra em colapso, e desaparece em nada. Basta ele dizer: não haja mais carga elétrica, e o que resta? nada! A criação também deveria ser entendida desta forma, só em sentido inverso.
Os cientistas postularam que o tempo, o espaço e a matéria são interdependentes e nenhum destes pode existir isoladamente. A grandiosidade da afirmação do primeiro versículo da Bíblia fica, neste contexto, evidente: "No princípio ( tempo =0) criou Deus  os céus (todo o espaço cósmico) e a terra." Segundo o Dr. Henry Morris, fundador do ICR, Instituto para Pesquisa da Criação, a palavra usada na língua original pode tanto ser traduzida como Terra ou como matéria, toda a matéria do universo. Isto dá mais sentido também ao próximo versículo: "A terra (matéria), porém, era sem forma e vazia." A matéria não tinha ainda sido agrupada para formação dos astros. Esses, tempo, espaço e matéria, tiveram, continua a dedução dos cientistas, um início e consequentemente terão um fim.
Talvez isso explique por que Deus não atribuiu os adjetivos "perfeito" ou "excelente" à sua criação, e sim simplesmente "muito bom" (Gên. 1). Paulo identifica o amor como o maior entre a fé e a esperança. Creio que a razão disso é que, entre esses três, só o amor é eterno.
A primeira lei da termodinâmica, "nada se cria, nada se perde, tudo só se transforma", só tem validade entre o início e o fim da trilogia tempo/espaço/ matéria. Esses três não surgiram através das leis da termodinâmica, foram exatamente as leis da termodinâmica que surgiram a partir dos três, algo que freqüentemente se esquece quando se pondera sobre as questões da origem do universo.
A segunda lei da termodinâmica transmite um pouco da característica perene deste mundo material: "Tudo tende à desordem/deterioração. O aumento da entropia é a tendência natural." Fato que observamos universalmente em tudo que é material ao nosso redor. Obviamente, quanto melhor a qualidade/consistência, menor a velocidade de degradação. Por isso nós nos dispomos freqüentemente a pagar preços mais elevados para bens mais duráveis. Mas assim mesmo não deixam de ter um período de existência e posteriormente já não preenchem mais parcialmente ou plenamente as suas funções.
Qualidade tem hoje um significado mais amplo do que só durabilidade. Mesmo assim, normalmente, durabilidade é um fator de qualidade. Quanto "mais perfeitos" mais duráveis. A margem de tolerância de fabricação é um fator que afeta a durabilidade.
Em outras palavras: o que é mais preciso, fabricado com menor margem de tolerância, é, dentro do seu semelhante, o mais durável. Mais durável mas não eterno, porque não é perfeito. Até o material aplicado, como vimos acima, tem um fim em vista. A margem de tolerância igual a zero não é tangível ao nível do processo produtivo nem ao nível do material aplicado (matéria).
Se, portanto, ele existe como primeira causa, o gerador de todas as coisas, ele é eterno e, por conseqüência, absolutamente perfeito.

2.1.2 - 2o Axioma: Um Ser eterno deve forçosamente possuir atribuições absolutas e absolutamente todas elas.
É uma conclusão relativamente óbvia do primeiro axioma. Se as atribuições não forem absolutas, não serão integrais, plenas, e, consequentemente, não serão perfeitas, conduzindo, para assim se dizer, para uma debilitação que, cedo ou tarde, conduziria à exterminação.
O mesmo se aplica, também para o segundo axioma. Se não possuir a plenitude das atribuições, não será completo e , sim, debilitado, não tendo qualificações para persistir eternamente.
Onisciência, onipotência, amor, santidade, justiça, misericórdia, são algumas destas atribuições.

22.1.3 - 3o Axioma: Não pode haver dois seres distintos (antagônicos) com a plenitude das atribuições absolutas.
O absolutismo é exclusivista. Um deles deterá a supremacia. No mínimo, apenas um deles pode ser onipotente. Talvez isto ajuda a entender um pouco mais o mistério da trindade de Deus. Parece que há certa hierarquia até na trindade. O Pai envia o Filho. O Filho envia o Espírito Santo. O dia da revelação do poder de Deus, com o glorioso retorno de nosso Senhor Jesus Cristo era de conhecimento exclusivo do Pai. Tem vários outros exemplos mais, relatados na Bíblia, mas todos os atributos são às três pessoas da trindade.

2.2.0 - A perfeição se deve revelar na adoração.
Efésios 1,6 e 12.
Adoração perfeita (honesta/pura/imparcial/espontânea/genuína) somente pode ser prestada por um ente que detém o livre arbítrio (um ser moral): "Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu;" (Salmos 40,8) e "Para que sejamos para o louvor de sua glória,..." Ef. 1:12 (Tradução do NT de F. Janzen)
Foi, provavelmente, o Dr. Francis Schäffer quem sugeriu o seguinte cenário de ilustração: "Você acopla um gravador a uma micro-chave instalada junto à porta de entrada de sua casa. Cada vez que você abre a porta, a chave aciona uma gravação: "Você é o maior, é o mais inteligente de todos. Já fez grandes feitos, você é o mais belo, puro e poderoso, etc.." Afinal, que valor isso teria para você?" Talvez algum discípulo da afirmação positiva, do pensamento positivo ou os maquiadores de auto-imagem disto extrairiam algum proveito, mas não os  realistas e objetivos.
Recordo-me de um incidente de experiência própria. Costumava me apresentar em duetos de violino com meu amigo. Nem sempre nos saíamos tão bem. Certa ocasião fomos mais ou menos desastrosos na nossa apresentação. Queimando ainda na face frente ao vexame que passamos, nos apareceu um outro violinista, já atrás do palco, e com uma pompa de palavras nos inundou com largos elogios. Sempre mais lento na detecção de malícias, fui antecipado pelo meu amigo, que, por pouco não destruiu o seu belo instrumento na cabeça desse "admirador" hipócrita.
O louvor não tem valor se não for honesto e autêntico. Deus na sua majestade, desejou receber a apreciação espontânea de seus feitos e seu poder. Os anjos não têm mais esta possibilidade, apesar de darem louvores, de dia e de noite, ao nosso grande Deus.  O homem, com sua faculdade de autodeterminação, é a única criatura capaz de se expressar espontaneamente.

2.3.0 - Um ente moral implica em risco.
É de nosso conhecimento e prática, em questões de averiguações ou certificações, apelarmos para entidades qualificadas e neutras. Até a justiça, através dos seus juízes, recusa testemunhas que sejam parentes do réu ou que tenham preferência pela absolvição de uma das partes.
O laudo ou a sentença deve ser isenta de desejos de qualquer natureza. Sabemos, através do cotidiano, como isto é difícil na prática. O princípio assim mesmo persiste, mesmo frente às deficiências na prática, mas o risco de um julgamento parcial ou injusto para o réu é real.
No caso de Deus e a sua criatura, por Deus ser intrinsecamente merecedor só de louvores, só existe o risco ou a possibilidade de esta criatura lhe negar injustamente a adoração cabível: "Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador,..." ( Rom. 1,25). Mais grave ainda é a prestação de adoração a alguém outro por aquilo que Deus tem feito. É idolatria, é jogo sujo. O ídolo sempre é um ente corrupto por permitir ser adorado por aquilo que ele próprio não realizou ou não pode realizar.
O que você acha da integridade de uma pessoa que não recusa os elogios erroneamente e imerecidamente a ela dirigidos? Você acha que Deus encara isto diferentemente?

2.4.0 - A santidade absoluta de Deus exige obrigatoriamente a condenação/eliminação do autor da injustiça.
(Rom.2,12)
Quase todos nós estamos familiarizados com margens de tolerância nos processos produtivos de qualquer natureza. Quanto maior a responsabilidade ou qualidade, mais apertadas as margens de tolerância. A conseqüência geralmente é o aumento de durabilidade do bem.
Vamos considerar para o nosso caso que a margem de tolerância é o único fator da durabilidade. Quando a margem de tolerância tender a zero a durabilidade tende para infinito. É possível fabricar um bem com margem de tolerância igual a zero? Nenhum, é claro. Consequentemente, para o nosso caso, não haverá bem eterno.
Se transpormos esta realidade para o campo espiritual, a margem de tolerância poderia muito bem representar o grau de santidade, a justificação/vida eterna, porém, somente poderá ser alcançada com a santidade absoluta, margem de tolerância igual a zero, porque é a única qualidade que pode ser aceita/tolerada por um ser absolutamente santo. Qualquer desvio, mesmo infinitesimal, é contaminação de sua perfeição/santidade, situação impossível para um ser eterno.
Sua santidade exige a condenação/eliminação daquilo que não é absolutamente puro.
O controle de qualidade de Deus não admite margem de tolerância.
2.5.0 - Na sua perfeição, Deus também é absolutamente misericordioso. "Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito,..." (João 3,16a).
A misericórdia também é um atributo absoluto de Deus. A sua misericórdia só pode ser absoluta se o sujeito a quem se manifesta a sua misericórdia estiver em estado de absoluta insolvência, caso contrário Jesus teria sido sacrificado desnecessariamente. Para que a misericórdia seja autêntica é mister que o receptor esteja em autêntica necessidade desta misericórdia. Unicamente através dela poderá haver a saída da condenação.
Misericórdia é amor em ação. Amor divino. Aquele que não solicita algo em contrapartida. Jesus menciona o limite, o máximo que o amor humano é capaz de fazer: Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos (Jo.15,13). Mas Paulo nos ensina que o amor de Deus é muito mais: Dificilmente alguém morreria por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém se anime a morrer. Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores (Rom. 5,7-8).
O amor autêntico, divino, só se revela, é posto em prática na misericórdia. O amor, atributo absoluto de Deus, é embutido no atributo misericórdia. Sem amor divino não há misericórdia divina, sem misericórdia divina, não há amor divino.

2.6.0 -  O DILEMA DE DEUS SEM UM MEDIADOR

2.6.1 - Se Deus faz justiça ele não é misericordioso - Se ele é misericordioso, não pode fazer justiça.
Se Deus fecha um olho em misericórdia ao estado de imperfeição/pecaminoso de sua criatura, deixa de ser santo.
Se ele faz valer a sua justiça, exigida frente à sua santidade, deixa de ser misericordioso: "Miserável homem que sou! quem me livrará do corpo desta morte? (Rom. 7,24).
Parece não haver saída para estas duas atribuições, porque se excluem mutuamente.

2.6.2 - Para haver misericórdia sem ferir a justiça, a ofensa precisa ser reparada por meios justos/válidos/consistentes.
Suponhamos que Deus, após criar Adão e Eva, lhes disse que no dia que comessem da fruta proibida morreriam, pressupondo que obedeceriam, abstendo-se deste alimento. Depois que Deus viu que se enganara a respeito da lealdade dos dois, teria, num ato de misericórdia, revogada a sua sentença de morte. Afinal, como ele é Deus, soberano e onipotente, pode agir como bem entende. Quem lhe cobraria?
Mas não é assim. Deus, em primeiro lugar não fez uma ameaça fria a Adão e Eva. Ele tão somente os informou o que a sua santidade absoluta não pode tolerar: desobediência, que eqüivale a rebelião. A morte é conseqüência direta do veredicto de Deus mas o veredicto de morte é a conseqüência obrigatória para eliminar a impureza/transgressão/desobediência da santa presença de Deus. Deus não é injusto e consequentemente, até os seus atos de misericórdia precisam seguir um procedimento idôneo/correto/consistente.

2.6.3 - O ser humano não tem condições de se auto-reabilitar.
Voltando aos axiomas. Não se chega ao infinito acrescentando-se, sucessivamente, mais um, ao número anterior. O limite deste processo de fato é o infinito, mas não se chega a ele através deste procedimento. Sempre restará um número, mais um. O infinito é intangível. Nem no infinito a curva coincidirá com a assíntota.
A santidade de Deus é semelhante. A santidade absoluta de Deus não é uma sucessão infinita de atos de santificação, e sim a assíntota da santificação. A santidade do processo de santificação está separada da santidade intrínseca de Deus, assim como uma curva de uma função matemática está separada de sua assíntota (linha limite da função), que, segundo definição, se tocam no infinito. Como o infinito é intangível, a curva da função se aproxima cada vez mais da assíntota, mas estará separada desta sempre ainda por um infinitésimo, sem jamais coincidir com a mesma. A própria palavra santificação revela que houve um processo e que o ponto de partida era a falta de santidade.
Com a margem de tolerância divina para a santidade igual a zero, a salvação pelas obras é impossível e fruto da falta de reconhecimento da absoluta santidade de Deus. Não é por falta de vontade de Deus nem por falta de esforço do ser humano que não podemos transpor da curva para a assíntota. É por força de sua eterna existência, que requer absoluta santidade, que ele não pode cometer a injustiça de absolver a sua criatura transgressora através de boas obras ou boa vontade. Deus seria imoral se, por um lado permitisse que Jesus Cristo fosse morto pelos pecadores e por outro lado fosse possível salvar-se através de boas obras.
Muitas das religiões não cristãs até têm freqüentemente nobres preceitos e regras de conduta louváveis. A questão crucial, no entanto, é a justificação. Como posso alcançar a santidade para subsistir perante o meu Criador.

2.6.4 - Necessita-se de uma causa externa que nunca teve parte na transgressão.
2Sal.49, 7-9: "Nenhum deles de modo algum pode remir a seu irmão, ou dar a Deus o resgate dele (pois a redenção da sua alma é caríssima, e cessará para sempre), para que viva para sempre, e não veja corrupção."
Títulos de dívida  podem somente rolar a dívida.
Para se pagar uma dívida necessita-se de dinheiro "QUENTE":
" E, quando vós estáveis mortos nos pecados, e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas, havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz."(Col. 2,13-14).

A morte justa, do injusto ente, só pode ser justificada/paga /remida, pela morte de um justo( um não envolvido no processo da dívida). O preço da remissão deve ser equivalente ao valor da condenação, ou seja a morte. Aquele que não cometeu injustiça, levou a condenação da injustiça sobre si no lugar daqueles que a mereciam por justa causa: "Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus (2. Cor. 5,21).
Isto dá a  Deus a legitimidade de retirar de graça a merecida condenação dos injustos e declarar, sem consideração do esforço próprio, absolutamente justos, aqueles que, por força da lei ( que trata da santidade que tem validade perante Deus) eram escravos eternos do pecado (Rom.2,2). Tudo isto novamente através da decisão voluntária/ livre arbítrio, se espontaneamente admitirem a sua culpa perante o Criador, pedirem perdão pelo feito e reconhecerem na morte substitutiva de Jesus Cristo a sua merecida condenação própria.
Fazer pecado pelos pecadores aquele que é absolutamente santo = amor/misericórdia infinita.
Se alguém é achado culpado já é um vexame. Mas a indignação e revolta são muitas vezes maiores se alguém recebe, por engano, a condenação pelo delito de outrém. Nós, porém, não somos perfeitos e se recebemos uma punição não merecida, muitas vezes também não recebemos a punição merecida. Agora imaginem o horror de alguém que era absolutamente santo, ser feito pecado/pecador e ser condenado à morte injustamente em substituição daqueles que a mereciam por justa causa. Foi tamanho o horror que o próprio Deus ocultou a sua face perante o seu bendito filho ao ponto de Jesus gritar em solidão agonizante: "Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?" (Mat.27,46). “Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do Senhor prosperará na sua mão. Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniqüidades deles levará sobre si. (Isaías  53:10-11)
Se, como alguns tentam inferir, Maria não engravidou pela ação do Espírito Santo e sim pela vontade de um homem, então Jesus poderia, no máximo, ser um profeta, mas jamais o filho unigênito de Deus, o cordeiro sem máculas. Neste caso nós ainda estaríamos nas trevas e sem esperança.

Como a Sua santidade é absoluta, a Sua morte também vale para todos. Considerando, n todos os seres humanos de todos os tempos/pecadores, m todos os pecados de toda a humanidade que Cristo tomou sobre si e x, que é igual a zero, os pecados próprios de Jesus Cristo, temos:  Y=n.m/x. Y é o número de pecadores justificáveis pela sua morte, infinito: "... para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." (João 3,16b).
Por este motivo, Jesus Cristo não é um remédio para corrigir um erro de cálculo de Deus, mas sim, parte do projeto original da própria criação do universo, como também Paulo escreve com precisão aos Colossenses: " O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação...   ...e que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus." (Col. 1,15...20).
Assim faz muito sentido de a Bíblia afirmar: "...nomes... ...escritos no livro do Cordeiro que foi morto, desde a fundação do mundo."
Também não é arrogante afirmar que não há salvação em nenhum outro. É obviamente inútil e idólatra apelar para qualquer outro ser.

2.6.5 - FINALIZANDO
Por esta razão, importa que nos apeguemos, com mais firmeza, às verdades ouvidas,  para que delas jamais nos desviemos. Se, pois, se tornou firme a palavra falada por meio dos anjos, e toda transgressão e desobediência recebeu justo castigo, como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação?(HEBREUS 2,1-3)

3.0.0 - Como posso reivindicar essa  salvação?
3.0.1- Preciso reconhecer o meu estado de insolvência espiritual de que eu não tenho a capacidade de me auto-reabilitar para adquirir a justiça e a santidade de Deus.
3.0.2- Devo acreditar  naquele que tem esta santidade, Jesus Cristo, e pedir perdão a Deus pelos atos de "imperfeição" por mim cometidos. Atos 10,43b ...todos os que nele crêem receberão o perdão dos pecados pelo seu nome. 1.João 1,9 Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça.
3.0.3- Devo compatibilizar o meu estilo de vida com a sua vontade, expressa na sua Palavra, a Bíblia. 1.João 1,6 Se dissermos que temos comunhão com ele, e andarmos nas trevas, mentimos, e não praticamos a verdade.

3.1.0- Como faço isso?
3.1.1- Falando a Deus, com minhas próprias palavras e expressões, como se estivesse falando com um amigo à minha frente.

3.2.0- Como eu sei que fui ouvido e perdoado, atendido?
Você percebe o perdão imediatamente. Aquela perturbação angustiante sobre o futuro, a incerteza do além, o sentimento de culpa, desaparecem de vez. Rom. 8,16 O mesmo Espírito testifica com o nosso Espírito que somos filhos de Deus. 1.João 5, 10 - 12a Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho;... e o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está em seu Filho. Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho não tem a vida.
Procure comunhão com as pessoas que já experimentaram o perdão de Deus e compartilhe a tua experiência com eles.

Agradeço aos pastores Peter Unruh, Valdemar Krocker e Fridolin Janzen pelas sugestões, análise e correção do texto.    Curitiba, março de 1995

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