LÍNGUAS

Corrigido e Atualizado em 06 de abril 2005

 

Apesar de línguas ser um assunto muito polêmico nos  dias de  hoje, quero assim mesmo fazer aqui uma tentativa de  compreensão do texto para podermos dar, no agrado de Deus, a correta  interpretação dos  acontecimentos  atuais (Da Bíblia para os acontecimentos = teologia sistemática), ao  invés de tentar-se acomodar simplesmente os acontecimentos dos dias de hoje no contexto bíblico (das manifestações para a Bíblia = teologia situacionista).  A  relevância  do assunto não nos pode deixar  indiferentes porque a conclusão não é neutra, portanto mãos à obra.

 

O Caráter do Texto

 

Sugiro para  tanto que  o  leitor sublinhe primeiramente na sua Bíblia, no texto de I. Coríntios  12:13  e  14, todos os  trechos que caracterizam a doutrina correta de Paulo em oposição às doutrinas errôneas dos Coríntios. Os advérbios: por isso, ora, mas, porque, pois, não, pelo contrário, para que, de maneira  que, porventura,  ainda que,  porém,  também,  contudo,  etc.,  tão  abundantes   no texto,  o  identificam  claramente como texto corretivo.

Algo estava profundamente  errado na  igreja de Corinto e precisava ser corrigido. Alias já no primeiro versículo do capitulo 12 Paulo não deixa dúvidas sobre  isto. O versículo implica que  Paulo os considerava ignorantes quanto aos dons espirituais.

A identificação do  caráter do texto é fundamental para  a compreensão do mesmo. Caso contrário podemos confundir um “puxão de orelha" com uma afirmação doutrinária.

 

Que Línguas Eram Essas?

 

Sobre as línguas de Pentecostes não temos tantas dúvidas. Como se manifestavam, como eram entendidas pelos ouvintes, que línguas falavam, etc. (Atos 2). A opinião predominante da atualidade, no entanto, é de que as línguas dos Coríntios eram diferentes das línguas de Pentecostes.  No cap. 14 Paulo discursa muito sobre o problema das línguas, sem ser específico, no entanto, sobre quais as línguas que falavam,  e creio que  por isso as pessoas se confundem com o dom de línguas.  Mas no vers. 21 de I. Cor.14, citando uma  profecia do V.T.,  Paulo deixa  claro,  sem margem  de dúvidas, que línguas eram estas sobre as quais discursa, para nós nebulosamente, por  tanto tempo.  Creio, no entanto, que é importante, primeiramente identificarmos a qual Deus falou em outras línguas. É à igreja de Cristo ou é ao povo de Israel? O efeito, ou melhor, a falta do efeito do falar em línguas estranhas identifica o povo. O "Assim mesmo não me ouvirão" deixa claro que as "outras línguas" do texto se  referem ao povo de Israel.  Pois, é este povo que não atendeu ao chamado de Deus; um fato histórico. E com que línguas Deus falará a Israel? “Homens de outras  línguas"... - línguas estrangeiras, e com isto Paulo revela que as línguas em ambos os casos eram as mesmas (não necessariamente a mesma lista de línguas). No V. T. Deus falava a Israel, através dos profetas de Israel na língua hebraica/aramaica (salvo  raras exceções). Agora a situação mudou, será por intermédio de estrangeiros e por línguas estrangeiras, conhecidas pelos ouvintes Judeus (Atos 2: 8-11). Não há a menor dúvida, as línguas dos Coríntios eram as línguas de Atos. Paulo aplica os textos da lei e do profeta Isaías às manifestações de línguas em Corinto. Quem somos nós, a quase 2000 anos dos acontecimentos, para questionarmos a interpretação dada pelo apóstolo Paulo, o qual esteve pessoalmente presente e, pessoalmente, falou mais em línguas do que os demais? O dom de línguas, portanto, consistia em louvar a  Deus e profetizar (no sentido de contextualizar a Palavra de Deus), em uma língua dos gentios, sem tê-la anteriormente aprendida.

 

A Quem Eram Dirigidas?

 

Paulo interpreta o ver. 21, de I. Cor.14, no vers. 22 "um, sinal para os incrédulos". Alguns devem pensar: “Mas Paulo! tu te contradizes logo no próximo versículo! Porém Paulo se refere aos judeus, incrédulos, simplesmente por “incrédulos/infiéis/descrentes" (vers.22) e aos gentios crentes por “fiéis"  e aos gentios  incrédulos de  "indoutos "  (indoutos = não instruídos  na  lei mosaica) (vers. 23). Para os judeus crentes o sinal de línguas não tinha mais sentido pois  já criam em  Jesus Cristo. Para os gentios, crentes e incrédulos, era loucura.  Línguas tinham, portanto, só um sentido como sinal para os judeus incrédulos, e assim mesmo  somente para  a sua condenação,  porque  "assim mesmo não me ouvirão". Os judeus se referiam, e se referem ainda atualmente, aos gentios com o termo "goy", ou "goyim", o que significa "cachorros/cachorrinhos". É este termo que também Jesus usou ao responder à mulher cananéia que pedira auxílio: "Ele, porém, respondendo, disse: Não é bom pegar o pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos." (Mateus 15:26). É impensável que judeu algum aceitaria a revelação de Deus através de outra língua a não ser o hebraico/aramaico. A língua dos "cachorrinhos" era inapropriada/mundana aos seus olhos. O sinal de línguas de pentecostes consistia exatamente no fato de Deus falar, se revelar, agora, através das línguas das nações gentias e não mais através do hebraico. Sinal claro que Ele, Deus, havia virado as costas para a nação de Israel como portadora de suas revelações e seus ensinamentos. Todos os anjos falaram, até aquela data, a Israel, em hebraico e desta feita, também seria mais coerente interpretar a língua dos anjos de I. Cor. 13, se é que o texto sequer quer comunicar isto (o texto é uma hipérbole = antítese impossível/absurda), como sendo a língua hebraica. Desta forma também é inapropriada/heresia/fogo estranho, a prática de línguas na igreja atual e é um enorme equívoco atribuir à glossolália a prova do "batismo" com o Espírito Santo. Línguas, Paulo nos ensina, é um sinal para os judeus infiéis, nada mais. I. Cor. 14:22. Além do mais, as línguas eram uma demonstração inequivocada aos judeus de que Deus agora se revelava/dirigia diretamente a todos os povos, indistintamente. Não havia mais "povo eleito" no sentido de descendência física, porém, apenas no sentido de descendência espiritual - pela fé, para a época da igreja. Depois do arrebatamento Deus retomará a história com Israel. É, portanto, totalmente fora de entendimento da Palavra de Deus se pretender falar atualmente ainda em línguas. Por outro lado, as línguas atuais, pelo fato de não terem respaldo na Palavra de Deus, também nada tem a ver com a manifestação do Espírito Santo e nem com  as línguas das igrejas do tempo dos apóstolos, é fogo estranho, é engano.

Pelo mesmo raciocínio é inconcebível que a Septuaginta, o VT da Palavra de Deus em grego, língua dos "goy", língua dos cachorrinhos teria sido usado pelos judeus na época de Jesus. Seria um sacrilégio. (E, aparentemente, o é até hoje. Você conhece qualquer comunidade israelita/judaica atual que se utiliza da Setuaginta?)

 Por outro lado, também, se o grego era a língua litúrgica dos judeus na época de Jesus, as línguas de pentecostes não representariam sinal algum para os judeus infiéis. O sinal de línguas de pentecostes consistia exatamente no fato de Deus falar, se revelar, daquele evento em diante, através das línguas das nações e não mais exclusivamente através do hebraico.

 

Um Instrumento Para a  Edificação Própria?

 

Assim  também vós,  visto que desejais  dons   espirituais, procurai  progredir, para  a  edificação da igreja (I.Cor. 14:12).  A finalidade dos dons espirituais é a edificação da igreja e não a do indivíduo.

Pelo posto até aqui  fica agora fácil entender o texto todo.

Vamos seguir por alguns versículos do capitulo 14.

Vers.2 O "...pois quem fala línguas..." se contrapõe a “.... mas principalmente quem profetiza..."   do  vers.  1,  e  ao "...mas o que profetiza...  do vers.  5,  e fere o objetivo dos dons espirituais, que é edificar a igreja.

Louvar a Deus em público, em voz alta, em uma língua estrangeira desconhecida, fala mistérios do ponto de vista dos ouvintes.

Vers  4 "O que  fala  em outra língua, a si mesmo se edifica".  Atrapalhar aqueles que  não entendem o que é falado, de ouvirem algo edificante que possam entender é falta de amor (Cap.13).

Vers5 "... quisera  que vós  todos... (falassem)   línguas, muito mais..." Vers.  39 “...não proibais o falar em outras  línguas". O sinal de línguas era  obviamente importante para os judeus incrédulos, representantes da  nação de Israel, que freqüentavam as reuniões da igreja  da  época,  e, portanto,  as   duas   referências (Vers. 5 e 39) faziam muito sentido e  também eram importantes para  a época. Mas com a gradual  redução de judeus incrédulos nos cultos no decorrer do  tempo, ou,  eventualmente,  já tão cedo como  a  destruição de Jerusalém pelo General romano Tito, a qual eliminou até 1948 a existência  formal da nação de Israel, ou 1967, com a retomada de Jerusalém, a manifestação de línguas deixou de ter um objetivo,  cumprindo-se o versículo 8 do capitulo 13  "... línguas cessarão.

Vers.   6 a  10.  Neste trecho Paulo expõe o  absurdo de alguém  insistir em louvar a  Deus em público em uma  língua   des-conhecida  aos ouvintes.

Vers. 11.  A  igreja  é  a comunhão dos Santos. A língua é o instrumento mais poderoso de se estabelecer esta  comunhão,   por isso ela deve ser de conhecimento comum dos congregados.

Vers.13 O dom de louvar a Deus em uma língua não  aprendida, pelo poder do Espirito Santo, aparentemente implicava que aquele que a falava, geralmente não era capaz de repetir o conteúdo na língua de conhecimento geral  dos congregados, daí a ênfase dada  à oração pela  interpretação.   Segundo os estudados da língua original,  as palavras:  "língua"   e "interpretação",  não possuem os significados a eles geralmente atribuídos hoje

Entende-se por  "língua" no  texto original  "língua"   ou "dialeto" falado pelos povos desta terra e "interpretação" a simples tradução,  palavra  por   palavra, portanto,  totalmente descabíveis quaisquer significados místicos.

Vers.  14 O espírito,  de fato, é frutífero no louvor, mesmo quando se ora em uma língua desconhecida  (vide o exposto sobre o versículo anterior). A mente,  no entanto,  é infrutífera porque é ela que se expressa  através da palavra  falada aos presentes.  A implicação é óbvia, de que não se tratava de um êxtase em silêncio, porque  neste caso não se poderia afirmar de que se tratava de uma língua.  Uma língua exige a  produção de "ondas sonoras"  com um significado definido. De fato o louvor em línguas era em voz alta, mas - desconhecida  à maioria  ou totalidade dos congregados.

Vers.   15  "Que   farei, pois?"  Implícito  nesta  pergunta esta a negação do versículo anterior.  Não devo mais orar em  uma língua  estrangeira  em  público. Devo sim,  no  amor de Cristo, contribuir para a edificação do corpo de Cristo, e é exatamente isto que Paulo,  na seqüência  deste mesmo versículo, ensina.

Freqüentemente tenho observado pessoas que já amam,  ou melhor simpatizam com a causa de Cristo, mas ainda não se converteram,  sentirem  constrangimentos em reuniões de oração. Mecanicamente  lêem ou repetem  orações decoradas,  mas  seus   espíritos dificilmente  "ultrapassam o  teto do  recinto”.  Deus é Espírito:  e importa  que os seus adoradores  o adorem em espírito e em verdade (Jo. 4:24). Na oração, meu espírito está em Deus, mas as palavras estão com os ouvintes,  frutificando  as  suas mentes para  que comigo adorem a Deus em espírito e acrescentam o amém como se também fossem as suas próprias orações.

Por esta razão devo adorar a Deus simultaneamente,  em espírito e com a mente. Da  mesma forma o canto. Os cantores se dirigem (deveriam se dirigir) em espírito a Deus mas através da letra cantada frutificam o louvor nos corações dos ouvintes,  para que também eles se unam em espírito ao louvor.

Muitos querem separar as orações e cantos em “no  espírito" e “na mente”  como se fossem dois eventos separados.  O que Paulo quer dizer de fato é exatamente o contrário:  nunca divorcie o teu espírito de tua mente. No contexto com o vers. 14 isto fica bem claro.

Vers.  16 e 17 são uma extensão do vers. 13.

Vers19 Paulo de  fato tinha mais necessidades de falar em línguas estrangeiras, do que os demais,  devido às suas  inúmeras viagens.

Vers. 19 No contexto  até aqui apresentado não mais nos parece exagero de Paulo afirmar que palavras com entendimento tem 2000 vezes mais valor do que  línguas. Aqui também fica claro o termo anteriormente  referido como "com a mente" o qual é sinônimo de "entendimento".

 Vers.20 A frustração de Paulo com a  igreja de Corinto chega neste versículo ao   ápice.  A igreja de Corinto, de fato,  tinha um juízo de meninos. Será que  nós passamos disto?

Vers. 28 "Mas não havendo intérprete, fique calado na  igreja,  falando consigo mesmo e  com Deus'"  (Veja  o exposto sobre  os vers.  2,4 e  15).  Orar em uma língua que os demais desconhecem é efetivamente falar consigo mesmo. Em outras palavras, cale-se,  mas continue orando; "sem emitir ondas sonoras". O texto não implica que isto seja em línguas, nem que isto seja em casa. Não temos portanto a base bíblica para afirmarmos  que línguas são para a  edificação pessoal.  Nem  faz  sentido  algum alguém afirmar que está caladamente falando em uma língua. O  texto desconhece o cantar em línguas.  O vers1  do cap. 13 não permite esta extrapolação. Neste versículo Paulo simplesmente contrapõe uma tese  impossível à ação sem amor, para evidenciar a absoluta  necessidade de o amor motivar todas  as nossas ações.

Agora você poderia se dizer:

"Tudo bem, eu concordo em parte, ou  integralmente, com aquilo que foi apresentado neste artigo,  mas comigo e ou na minha igreja línguas funcionam mesmo, portanto são a  manifestação dos dons espiritu-ais motivados pelo Espírito Santo.

 

A  maioria  das  coisas também funcionam nas religiões pagãs e nem por isso podemos afirmar que  procedem do  Espírito Santo.

Aliás,  esta é exatamente a  base das religiões pagãs, a  experiência. O cristianismo, em contrapartida, surgiu através da  revelação divina e é dela que decorrem as nossas doutrinas e  prá-ticas.  Ela é a verdade e à  esta verdade devemos declarar o nosso, inalienável, amor,  a nossa lealdade e a  nossa obediência, expurgando tudo o que à ela é estranho, para evitarmos de  cair  em erros  graves sob a condenação conforme II Tess.  2 9-11.  Deus,  na  sua  misericórdia queira  investigar a  intenção de nossos corações. O pacto de mentira entre Ananias e Safira levou os dois à morte, apesar de mutuamente se armarem, uma lição dura para nós de não aceitarmos um pacto de amizade e de respeito mútuo entre irmãos  em detrimento da Palavra  de Deus.

Waldemar Janzen

 

 (Adendo de 30/04/2002)

As palavras "línguas estranhas" e "intérprete" foram carregadas com significados tão distorcidos pelos movimentos pró-línguas ao ponto de muitos não entenderem mais o óbvio em I. Cor. 14. Vamos fazer mais uma explanação 

sobre “fale consigo mesmo”

Tenham em mente que até então Deus tinha falado aos israelitas apenas em hebraico.

Apliquem também o conceito de Paulo sobre o significado de “língua” como sendo de povos. Vers. 21: ...”outras línguas e por lábios de estrangeiros”...

Intérprete e tradutor são sinônimos.

I. Cor 12:7 “A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito para o proveito comum”. 

I. Cor 14:4 “O que fala em língua” (sem tradutor) “edifica-se a si mesmo” (não deve falar em voz alta porque não é para o proveito comum), “mas o que profetiza edifica a igreja”. 

I. Cor 14:17 “Porque realmente tu dás bem as graças, mas o outro não é edificado”.

I. Cor 14: 22 “De modo que as línguas são um sinal, não para os crentes, mas para os incrédulos” (judeus)

I. Cor 14:26b “Faça-se tudo para edificação”.

I. Cor 14: 28 “Mas, se não houver intérprete, esteja calado na igreja, e fale consigo mesmo, e com Deus”. Isto se aplica para durante a reunião na igreja, durante o culto. Se você ora em língua desconhecida aos presentes não pare de orar, mas ore de boca fechada! Não perturbe aos outros com o que não podem entender. Isto não edifica! Mas isto não se aplica para falar em língua estrangeira em casa. Lá se pode orar em outra língua em voz alta.

 

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