Rodrigo Silva Barros
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A Controversa Predestinação Calvinista
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Prefácio
Existem
contradições doutrinárias professadas por denominações cristãs tão sutis que
estas perduram por séculos. Existem contradições doutrinárias tão atraentes que
lamentamos profundamente que estas não sejam verdadeiras. A doutrina calvinista
de eleição dos santos seria providencial hoje, se estivesse correta. Em tempos
de pobreza teológica, onde o homem está sendo deidificado
e falsos apóstolos estão se levantando para tomar a glória de
Cristo, o verdadeiro Cabeça da Igreja, para eles próprios, a doutrina da
predestinação calvinista seria providencial.
Entretanto
eu creio que Deus não pode ser exaltado através de um erro. A
luz das Escrituras Sagradas podemos enxergar a verdade que o Espírito
nos ensina; e ver como o Senhor Jesus de fato controla a História, sem sombra
de injustiça. Desejo sinceramente, que o Pai bendito me guie nesse estudo com
tenras misericórdias, em nome do Senhor Jesus, para que no fim eu e o amado
leitor possamos exaltá-Lo e glorificá-Lo com o entendimento necessário para o
culto racional. Que Deus, me ajude e me ensine pacientemente e
misericordiosamente. Amém.
(ACF
Rom 12:1) “ROGO-VOS, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os
vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto
racional.”
Definições
Acredito
ser necessário definir termos para que o amado leitor possa ter um melhor
entendimento desse estudo. Portanto, exponho os seguintes conceitos:
Heresia:
Dados uma ou mais proposições
bíblicas, uma heresia é uma proposição que age de forma distinta ou equânime
sobre cada proposição bíblica, negando, incrementando ou decrementando
suas verdades espirituais.
Doutrina
bíblica: Toda doutrina bíblica, ou
proposição bíblica é verdadeira, eterna, infalível, inspirada pelo Espírito
Santo e sua fonte é exclusivamente as Escrituras Sagradas.
Evento:
É a alteração, sempre permitida por
Deus, de estado de um objeto, seja concreto, seja abstrato, seja ser ou coisa
inanimada, em função do tempo.
Vontade
divina permissiva: (Definição
incompleta, mas suficiente) São os eventos que essencialmente Deus não pactua,
mas os autoriza de fato, a fim de que tudo converja
para Sua glória.
Vontade
divina ativa: São os eventos que Deus
dirige de forma ativa e pessoal e expressam essencialmente o que Deus quer,
para que Sua glória seja exaltada.
Vontade
divina: É a combinação entre a
vontade divina permissiva e ativa.
Escrituras
Sagradas: (É necessário defini-la,
devido as múltiplas traduções) É Cristocêntrica,
perfeita, infalível, in-errante, totalmente preservada, tendo como Autor o
Espírito Santo. Ela é o Textus Receptus
de Estienne 1550 e o Texto Massorético, traduzidos em qualquer língua; desde que rigorosamente, pelo método
de equivalência formal. Eu recomendo ao amado leitor a Bíblia Almeida Corrigida
Fiel da Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil;
ela, e somente ela, é a fiel representante da Palavra de Deus em língua
portuguesa, nos tempos atuais.
Peço que o amado leitor entenda que o nosso
Adversário sempre tentou destruir a Palavra de Deus de uma forma ou de outra. E
ele não mudou hoje, em sua maligna aspiração. É importante que o amado leitor
entenda que nem todas as traduções disponíveis no mercado são
a expressão de temor a Deus, por parte daqueles que deveriam usar sua
erudição, dada por Deus, para dar a nós a Palavra Viva incorrupta. Alguns
destes homens se deixaram enganar por suas vaidades e estão deliberadamente
corrompendo a Bíblia. Recomendo ao amado leitor que leia o livro de John
William Burgon “The Revision Revised”, para
elucidação deste assunto.
Uma vez, porém, tendo a confiança de que temos em
mãos a Palavra de Deus, podemos proceder o estudo sem
fazer uso do conhecimento das línguas originais da Bíblia. Se o amado leitor
tem o desejo de conhecê-las, faz muito bem. Entretanto, acredito que o Espírito
Santo nos ensina, usando Suas Escrituras, seja qual for a
língua destinatária (At 2:5-11). Desde que a Bíblia
que temos, seja fiel ao que seus autores humanos de
fato escreveram. E confio em Deus que Ele provê isso, de uma forma ou de outra,
segundo Sua eterna fidelidade.
(ACF 1Pe 1:25) “Mas a
palavra do Senhor permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi
evangelizada.”
Introdução
Em minha opinião pessoal, a doutrina calvinista da
Eleição é dificílima de ser refutada. Acredito que isso se dê pelo fato de da
abundância de versos em que ela se apóia; versos que, porém, são
incompreendidos. Seu zelo, no entanto, pela soberania de Deus de fato
representa uma inspiração, pelo qual devo ter todo o cuidado de preservar neste
estudo. Claro, reconhecendo humildemente que Deus não pode ser exaltado pela
injustiça.
O princípio desta tese, ocorreu
quando eu analisei as posições de duas denominações a respeito da
predestinação: a posição presbiteriana e a posição batista, a saber:
1. DEPRAVAÇÃO TOTAL
OU INABILIDADE TOTAL: O homem não pode fazer nada pela sua salvação espiritual;
inclusive usar de livre-arbítrio para se decidir por Cristo. Isso se dá porque
o homem teria necessidade de discernir as coisas espirituais, para se decidir
por Cristo. Como o homem é carnal, isto é impossível.
5. PERSEVERANÇA DOS
SANTOS OU SEGURANÇA DOS CRENTES: Uma vez salvos, sempre salvos. O eleito não pode perder a
salvação, porque Deus o sustenta de tal maneira que se ele cair, não decai da
graça totalmente e nem finalmente. A
santidade operante do Espírito Santo sobre o eleito é tão eficaz que ele
permanece até o fim.
(Esses foram os cincos pontos calvinistas contra o arminianismo, – que não tratarei neste estudo – no concílio
de Dort, Holanda.) É preciso notar que esses cinco
pontos, levam a uma conclusão natural de que Deus ama os salvos e não-salvos de forma distinta.
Se Deus usa a uns como vasos de misericórdia a outros, Deus usa como vasos de
ira. Ou seja, Deus está despejando ira aos ímpios que Ele preteriu e misericórdia
aos que escolheu; dois sentimentos distintos, entre uma escolha e uma rejeição;
e os calvinistas usam Rm 9:13
como comprovação disso. Deus estaria, portanto, amando as pessoas de forma
distinta.
Após algumas leituras eu me pus a ler a posição batista em relação
a isso (na qual eu tenho especial interesse), pois eu professo a fé dessa
igreja. A doutrina batista para a eleição é muito interessante, pois chega a um
meio termo entre o calvinismo e o arminianismo:
1. Todos são eleitos;
2. Deus opera a salvação em e através de
Cristo pelo favor imerecido de Sua graça;
3. Deus é pré-ciente;
4. De acordo com o livre-arbítrio, desde a
eternidade, Deus elege, chama, predestina, justifica e glorifica.
Nesse momento, foi possível para mim
tirar algumas conclusões. E eu, no temor do Senhor, apresentar-lhes-ei a você,
amado leitor. Que o Senhor Deus me ajude, em nome de Jesus.
Contradições
A princípio julguei serem incorretas duas posições de ambas denominações, a saber:
1. Como existe a eleição predestinada e
expiação limitada, logo Deus ama as pessoas de forma distinta;
2. “Todos são eleitos”.
Nem todos são eleitos e, tampouco Deus ama as pessoas de forma
distinta. Para demonstrar primeiramente o problema do conjunto de eleitos de todas
as épocas, basta atentarmos para as Escrituras no seu trecho mais famoso:
(ACF Jo 3:16)
Porque Deus amou O MUNDO de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que
TODO AQUELE QUE NELE CRÊ não pereça, mas tenha a vida eterna.
Ou ainda:
(ACF 1Jo 2:2) E ele é a propiciação
pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o
mundo.
(ACF Rm 11:7) Pois quê? O
que Israel buscava não o alcançou; mas os eleitos o alcançaram, e os outros
foram endurecidos.
Obviamente há dois conjuntos de pessoas, que Deus trata nesta
passagem: o mundo (todos os seres humanos) e aquele que crê em Cristo, o Filho
Unigênito. E ainda a passagem de Romanos, entre outras existentes, reforça a
idéia que os eleitos são, na verdade, sinônimos de crentes em Cristo; e não são
referidos como pertencentes ao mundo (exceto os que serão ainda salvos). Isso
contraria a idéia de que todos são eleitos. Entretanto, esse equívoco não é,
nem de longe, sério; apesar de que compreender essa questão é fundamental para o
nosso estudo. O problema derradeiro, porém, está exposto logo em seguida.
A idéia calvinista de que Deus ama as pessoas de forma distinta é
rechaçada neste versículo, pois Deus amou o mundo; e o “mundo” inclui os não-salvos, que
estão no Maligno (1Jo 5:19). O amor de Deus para com o homem é mostrada claramente nas Escrituras como um amor
incondicional. Podemos observar ao lê-las que Deus ama o homem pelo que ele é
hoje, e não pela benção predestinada que ele será amanhã. Deus ama o homem,
mesmo caído. E, se Deus não faz acepção de pessoas, ele não pode amar
distintamente; isso se aplica aos ímpios e aos salvos.
(ACF Rm 5:6-8) Porque Cristo, estando
nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios.
Porque apenas alguém morrerá por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém
ouse morrer. Mas Deus prova o seu amor para conosco,
Note que acima a expressão “morreu a seu tempo pelos ímpios”, está
em conformidade com Jo 3:16 e 1Jo 2:2.
(ACF Ez 18:23,32) Desejaria eu, de
qualquer maneira, a morte do ímpio? diz o Senhor Deus; Não desejo antes que se
converta dos seus caminhos, e viva? ... Porque não tenho prazer na morte do que
morre, diz o Senhor Deus; convertei-vos, pois, e vivei.
Certamente a palavra morte acima, significa a morte espiritual.
Pois os justos não temem morrer, porque sua morte é o príncipio
da vida eterna; e, ainda, o Senhor deseja tê-los por perto, no céu. Mas a morte
do ímpio é, porém, o príncipio da Segunda Morte. A
vida eterna dos justos, entretanto, é retratada dessa forma: (ACF Sl 116:15) “Preciosa é à vista do Senhor a morte dos seus
santos.” E ainda, se Deus não tem prazer nessa morte do ímpio Ele não pode,
contra Si mesmo, escolher os pecadores para serem objetos de ira eterna, de uma
forma livre. Portanto se o pecador morre espiritualmente, é porque ele foi
provocativamente rebelde e não quis converter-se; isso está evidenciado no
texto que mostrei logo acima.
Abaixo, eu exponho o interesse de Deus pela salvação de todos os
perdidos:
(ACF 1Tm 2:1-4) Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações,
orações, intercessões, e ações de graças, por todos os homens; Pelos reis, e
por todos os que estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e
sossegada, em toda a piedade e honestidade; Porque isto é bom e agradável
diante de Deus nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem, e venham
ao conhecimento da verdade.
(ACF Rm 2:11) Porque, para com Deus, não
há acepção de pessoas.
(ACF Dt 10:17) Pois o Senhor
vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores, o Deus grande,
poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita recompensas;
Dizer que Deus ama os salvos e não salvos de forma
distinta, abre um precedente terrível: permite que se denote a imperfeição da Pessoa de Deus; o que é
absolutamente impossível. Veja, amado leitor, o Senhor Jesus ordena que amemos
nossos inimigos (Mt 5:44). Sabemos, entretanto, que muitos daqueles que
perseguem os filhos de Deus perecerão para sempre (Jo
8:13-24). Se Deus ordena que amemos os nossos inimigos, e isso independente de
saber quem deles serão os salvos, é porque o próprio Senhor Deus assim age (Mt
5:48). Admitir que Deus ama as pessoas distintamente, seria o mesmo admitir que
Deus está sendo hipócrita, pois Ele mesmo não ama perfeitamente. Isso é de
fato, uma heresia maligna.
Considerando também que se Deus é capaz de amar as pessoas
distintamente, é possível que Ele ame os salvos distintamente, pois, no fim,
somos todos indignos do amor de Cristo. Essas são as implicações terríveis da
doutrina. Portanto, concluo que Deus não ama as pessoas de forma distinta, pois
Ele tem interesse na salvação de todos os ímpios.
O Plano de Deus na Salvação do Homem
O amado leitor poderá perceber que agora, a neblina começa
a se dissipar muito lentamente. Uma vez mostrado que Deus não pode rejeitar o
homem de forma livre, pois isso contraria a Sua natureza – pois Ele ordena para
que amemos sem acepção, até os que se perdem; porque Ele mesmo procede assim (At 9:1-6) – sabemos, entretanto, que ainda assim
determinadas pessoas morrem e são condenadas eternamente (Hb
10:28-29 e Hb 12:25) . Apesar da santidade de Deus
ser a causa do julgamento eterno, sabemos, entretanto, que não é Deus que rejeita
livremente o homem.
Resta uma dúvida: se não é Deus que rejeita livremente o
homem, quem na verdade procede a rejeição da salvação? Esta é uma lacuna que a
doutrina calvinista deixa. E ela só pode ser explicada biblicamente de uma
maneira: livre-arbítrio.
Oras, o livre-arbítrio é exposto como se segue:
(ACF Mat 23:37) Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas,
e apedrejas os que te são enviados! quantas vezes QUIS EU ajuntar os teus
filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, E TU NÃO
QUISESTE!
O amado leitor, estudando a Carta ao Romanos,
poderá perceber a forma descritiva com o que Paulo expõe o plano de salvação de
Deus para o homem. Resumidamente, a princípio, Deus chama a
Abraão justificando-o pela fé. Isso foi o anúncio aos tempos antigos, do
que Deus queria fazer conosco. O homem, nos tempos da ignorância, recebe a Lei
para a manifestação do pecado, condenando-o. Entretanto, pela misericórdia,
Deus manifesta Seu Filho Jesus que Se sacrifica, ressuscita e nos redime pela fé,
fazendo a graça superabundar sobre o pecado.
O amado leitor sabe que esta Lei é a Lei
Judaica e foi transmitida por Deus a Israel, por intermédio de Moisés. E, na
própria Lei de Moisés, já havia a predição de que Israel seria uma nação
rebelde (Dt 31:27) e uma promessa de cativeiro entre
as nações da terra, como conseqüência (Dt 28:41). De
fato, sabemos que isso ocorreu àquela nação como trata o profeta Jeremias. Entretanto a Bíblia diz que haveria uma outra
rebelião futura a qual seria contra o Messias (Sl
118:22).
Observando, novamente a Romanos, podemos
observar que a graça salvadora chegou até nós, os gentios, por esta rebeldia de
Israel. No assassínio do Messias, o Senhor Deus, que O enviou, trouxe a nós uma
outra Aliança com a ressurreição de Cristo; muito superior e diferente daquela
que Deus havia proposto a Israel.
Entretanto, o amado leitor poderia argumentar
o seguinte: “Deus endureceu o coração de Israel, para que este fosse sempre
rebelde e, assim, Deus poderia trazer Jesus a nós.” Mas, retornando ao verso
(Mt 23:37), vemos que não foi exatamente assim. A intenção original de Deus era
fazer com que Israel participasse da salvação do homem; mas Israel não quis. É
necessário que o leitor entenda que eu estou entrando num terreno onde a mente
humana já se encontra limitada. É impossível que se impeça a vontade de Deus
(Is 43:13); mas aparentemente, Deus permitiu que Israel interagisse com Ele.
Assim os eventos ocorreram da forma como os conhecemos. Isto é a vontade divina
permissiva. Deus permitiu que Israel fosse rebelde por vontade própria, mas Ele
mesmo não queria, no Seu íntimo que fosse assim. Esta é a prova do
livre-arbítrio, que Deus deu a Israel em sua história.
Continuando em Romanos, observamos que a
vontade permissiva de Deus, também é a expressão da soberania de Deus; pois
Paulo nos mostra que ainda que Israel O tenha rejeitado, no fim, a salvação
chegou ao mundo inteiro, através dessa
rejeição. E um dia chegará ao próprio Israel, na Grande Tribulação,
quando se cumprir o tempo aos gentios que Deus, em Sua soberania, determinou.
Outro exemplo que ilustra essa questão, é o
próprio testemunho de Paulo. As Escrituras afirmam que é doloroso para o Senhor
Jesus ver um servo Seu sofrer perseguição; pois Ele mesmo se sente perseguido.
Entretanto, o Senhor Jesus permitiu que Saulo usasse de todo o seu ódio contra
a igreja
Portanto, amado leitor, a limitação da minha
mente reside em uma questão: como Deus equilibra o que quer, com eventos que
realmente acontecem? Eu, na minha limitação humana, não consigo compreender
porque a vontade permissiva de Deus compõe de fato a vontade de Deus. Mas
reconheço humildemente que ela existe e não contraria a Deus; entretanto, eu
louvo a Deus, pois até ela faz com que as coisas converjam
para a Sua glória.
Provamos que existe livre-arbítrio, que
maneira alguma afeta a soberania de Deus. Muito pelo contrário; pois Deus
dirige os eventos de tal forma, que até as decisões dos homens servem para os
Seus desígnios. E desta conclusão inferimos que há entre o livre-arbítrio e os
eventos dirigidos uma intrincada relação que, no fim, expressa a vontade de
Deus. Provada a existência do livre-arbítrio inferimos que a graça é resistível
(Hb
10:28-29 e Hb 12:25; Mt 25:32-46). Essa resistência,
também serve aos desígnios de Deus.
Os Eventos e os Escolhidos
Uma vez um matemático disse que se quisermos compreender o
infinito, devemos estudar os casos primários e multiplicá-los; até que fiquem
tão grandes, que, em seus padrões, seja possível extrair uma idéia geral. Isso
é chamado de recorrência. Claro que isso não se aplica a Deus; a Ele, somente
Sua Palavra. Entretanto, vamos tomar emprestado esse conceito (devido as nossas
limitações mentais), e analisar um caso isolado para chegarmos a conclusão:
Como Paulo se converteu? Oras, sabemos que a conversão de
Paulo era conhecida desde a eternidade. Sabemos que Deus não só conhecia os
eventos, como também Ele mesmo os dirigiu.
Paulo se converteu através do próprio Senhor; para isso foi
permitido a Saulo perseguir a igreja; para isso, foi permitido a Saulo ser
fariseu; para isso foi permitida a existência dos fariseus; para isso Deus
dirigiu ativamente a conservação dos judeus desde o Cativeiro; para isso Deus
permitiu a rebeldia de Israel; para isso Deus dirigiu ativamente a existência
de Israel; para isso Deus permitiu a existência dos Patriarcas, e daí até Adão.
Em outras palavras amado leitor, Deus dirigiu os eventos de tal forma que
acabaram por culminar na salvação de Paulo. Entretanto, se você pensar um pouco
mais, você verá que Deus faz isso com todos os salvos.
Se você deixar sua mente fluir e pensar em todos quantos
você conhece; ou, em todos os exemplos que você se lembra, bíblicos ou
pessoais; você se lembrará de que todos eles foram cercados por eventos
combinados. E, se você for além e tentar visualizar os salvos de todas as eras
– considerando sempre a direção permissiva e ativa de Deus para os eventos –
você verá que, no fim, eles constituem um conjunto definido de pessoas. Portanto,
os eventos que ocorreram, ocorrem e ocorrerão, de fato são a expressão do
versículo:
(ACF Rm 8:28) E sabemos que todas as coisas contribuem
juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados
segundo o seu propósito.
Sabendo que todos os eventos são a expressão
da soberania de Deus e que Deus é atemporal, então podemos chegar a
incompreensível – humanamente falando – conclusão de que todos os eventos já
foram permitidos por Deus desde a eternidade; de forma simultânea e
instantânea. Lembro ao amado leitor, que a vontade divina é a combinação entre
a Sua vontade permissiva e ativa. E, portanto, Deus permite a interação através
do livre-arbítrio humano, determinando também a sua intensidade. Esses eventos
de causas e efeitos, uma vez definidos e autorizados desde a eternidade,
resultam necessariamente neste conjunto fechado de salvos; conjunto este
pré-conhecido e pré-dirigido. Estes são os eleitos.
(ACF 2Pe 3:9) O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por
tardia; mas é longânimo para conosco, não querendo
que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se.
E porque Deus tem soberania sobre os eleitos?
Porque embora possuímos o livre-arbítrio e Deus permite a nossa interação com
Ele, quem escolhe os eventos pelos quais passamos, é Ele. Até mesmo a medida
das conseqüências de nossos atos livres, são determinados
por Deus, desde a eternidade. Até mesmo a intensidade de nossas interações com
a vontade permissiva de Deus é limitada por Ele. Portanto, se somos salvos por
decisão, o somos porque Deus moveu o mundo e a História ao nosso redor. E se a
nossa salvação é fruto da nossa escolha por Cristo, a nossa decisão é fruto de
uma série de escolhas de Cristo; que, por sua vez, estão relacionadas as nossas
vidas. Todas essas decisões divinas foram tomadas no contexto da eternidade.
Cristo tem autoridade e até poderia fazer a História totalmente diferente; mas
por algum motivo desconhecido Ele, direcionou os eventos tais como os
conhecemos. E nós fomos salvos por isso.
Isso é muito diferente da doutrina calvinista
que afirma que Deus rejeitou uns e aceitou outros livremente ou sem causa
aparente. E, é de fato sem causa, porque somos todos igualmente injustos; e
todos carecemos igualmente da glória de Deus e pereceremos sem ela. Afirmo que,
na verdade, Deus selecionou esses eventos por um motivo que não podemos
compreender. E, por conseqüência, eles tornaram tais rejeições e aceitações
humanas possíveis. Isso resulta num conjunto definido de salvos.
Isso, não quer dizer que Deus não tenta
livrar o perdido. Muito pelo contrário, Ele tenta! Jezabel
é uma prova (Ap 2:20-23). Esta mulher era uma profetiza endemoniada,
que corrompeu alguns daquela igreja do Senhor. Entretanto, o Senhor permitiu em
Sua soberania, que ela tivesse um tempo de “paz” para se arrepender; este tempo
expirou, conforme o texto. Entretanto, não está dito se ela converteu-se ou
não, mas isso é uma prova que Deus trabalha com o perdido; até que ele O
rejeite definitivamente; isso é ilustrado no texto abaixo. E esta rejeição é
conhecida e autorizada desde a eternidade, sob a soberania de Deus.
(ACF Mt 7:6) Não deis aos cães as coisas santas, nem
deiteis aos porcos as vossas pérolas, não aconteça que as pisem com os pés e,
voltando-se, vos despedacem.
Entretanto, se um homem não se arrepende, outros porém se
arrependem. Todos estão, em comum, sob a eterna direção de Deus. E isso também
é diferente do arminianismo, pois concluímos contra
eles, que Deus não é só pré-ciente como
também trabalha ativamente no mundo; controlando, selecionando e
permitindo os eventos sobre o homem. Porém, é necessário lembrar que estes
eventos já foram determinados desde a eternidade, porque Deus é eterno e
atemporal.
A Questão do Livre-Arbítrio
Conseguimos, até aqui, amado leitor chegar as seguintes
conclusões:
● Se Deus ama o pecador de forma perfeita,
Ele não pode rejeitá-lo de uma forma livre. Ele possui um especial interesse na
salvação do pecador. O julgamento eterno ocorre, porém, porque o pecador decide
se afastar de Cristo; e a morte física deste, o põe em uma separação eterna da
santidade e da presença de Deus, condenando-o ao inferno.
● Deus é atemporal e eterno; para Deus, não
há percepção de tempo linear, semelhante ao que temos – ainda que Ele perceba o
nosso passado, perdoando ou cobrando por ele, conforme o caso; ou perceba o
nosso futuro – Portanto, existe de fato uma predestinação. Pois os eventos são
definidos e autorizados eternamente por Ele. Nós tomamos nossas decisões sob
contextos que o Senhor já definiu; e as conseqüências de nossos atos, tanto
quanto a medida dessas conseqüências, estão incluídas nas
decisões de Deus.
● Os eventos, como provamos, são fruto da
vontade tanto ativa quanto permissiva de Deus. E a vontade permissiva pressupõe
a existência de interações que provamos, no caso do homem, ser o
livre-arbítrio. E, mesmo sendo permissiva, esta vontade conduz a glorificação
de Seu Nome.
Certamente provada a existência do livre-arbítrio e sua
relação com a vontade soberana de Deus, conseguimos dissipar a neblina de uma
forma mais eficiente. Entretanto, resta uma pergunta: o livre-arbítrio está na
essência do homem? O homem de fato tem condições de decidir-se por Cristo,
mesmo sob condições adversas? Esta é uma pergunta que respondo com ousadia: Sim!
Entretanto, amado leitor, eu quero que você observe como é
bizarro o comportamento do livre-arbítrio humano. Certamente é um de seus mais
controversos comportamentos! As pessoas usam de forma muito estranha o seu
livre-arbítrio e isso certamente se deve a cegueira espiritual que estão
sofrendo.
Para ilustrar melhor, eu gostaria que o amado leitor
recorresse as Escrituras Sagradas no texto de Mc
5:1-17. Observe que aquele homem possuía mais de dois mil demônios; ele (verso
6), mesmo neste estado, correu até Cristo quando O viu, e O adorou
Este comportamento bizarro ocorre, porque o homem tem de
fato uma natureza depravada. Tenho certeza de que o amado leitor tem ou conhece
experiência nada trivial de conversão. E muitos que deveriam receber, de forma
mais natural, não recebem a Cristo e outros que são os mais improváveis acabam
recebendo-O. O inverso ocorre também; só Deus conhece e esquadrinha os corações
dos homens e sabe porque eles usam o livre-arbítrio
tão mal.
Esse comportamento bizarro é a prova física de que nenhum
homem é predestinado por Deus à salvação. Entretanto, a prova bíblica está
expressa como se segue: se o homem necessita de uma centelha de fé previamente
incutida por Deus no coração dele – para que quando se cumprir o tempo o
Espírito Santo use esta fé para despertá-lo – então o homem não pode ser
essencialmente mal. Porque se existe fé divina incutida no coração de algumas
pessoas – e sabemos que a fé gera bons frutos (Tg
2:18) – poderíamos notar nelas, um comportamento diferenciado e uniforme.
Agora, como explicar que um homem que possuía dois mil
demônios, poderia ter alguma fé divina incutida? – porque ele adorou Jesus quando O viu – E, se Deus o
predestinou livremente (pois ele foi salvo), como Ele pôde deixar que o dom da
fé que estava nesse homem pudesse conviver com a presença de dois mil demônios?
E sabendo que o dom da fé vem com a presença do Espírito Santo (1Co 12:9-13),
como Deus deu este dom a ele sem dar juntamente a Pessoa do Espírito Santo?
E se de fato existe uma centelha de fé divina no coração do
homem predestinado, – e por isso a natureza deste homem não poderia ser de todo
ruim – como explicar:
(ACF Rm 3:10-12) Como está escrito: Não há um
justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a
Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. NÃO HÁ QUEM FAÇA O
BEM, não há NEM UM SÓ.
Oras,a fé divina gera frutos, não importa se
ela é uma centelha:
(ACF Lc 17:6) E
disse o Senhor: Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta
amoreira: Desarraiga-te daqui, e planta-te no mar; e ela vos obedeceria.
Existe, no entanto, uma outra implicação para
esta doutrina; se Deus incute a fé em pessoas predestinadas, e a justificação é
pela fé, então porque elas deveriam invocar ao Senhor? Portanto, amado leitor,
eu posso asseverar com confiança de que uma heresia contrariando uma verdade
bíblica contraria todas as demais, pois a Palavra de Deus é Una.
Ainda, há uma dificuldade no próprio texto
que os calvinistas usam como base: (ACF Ef 2:7-9)
“Para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela
sua benignidade para conosco
Oras, dizem os calvinistas,
baseados no texto em itálico, que o dom que vem de Deus é a fé. Mas olhando
para os versículos próximos ao trecho em itálico, qual é o tema principal? A
graça. De onde, portanto, vem a nossa salvação? Não das nossas obras, mas pela
graça que é proveniente de Deus. Isso dá sentido ao texto posterior ao trecho
em itálico, que diz: “Não vem das obras, para que ninguém se glorie”. Se
invertermos o sentido, dizendo que o dom ao qual Paulo se refere é a fé, este
trecho posterior fica solto. Ou seja, teríamos um problema semântico, o que é
impossível na Palavra de Deus in-errante.
Através do sinal de
ponto-e-vírgula que há no trecho em itálico – o que denota uma explicação em
seguida – Paulo diz claramente que recebemos o dom da salvação pela graça, por
meio da nossa fé. E esse dom não vem das nossas obras, mas de Deus para não nos
gloriarmos. Esse é o sentido completo do texto.
As Coisas Espirituais
Uma questão que surge ao tratarmos do
problema do livre-arbítrio é: como é possível o homem, alienado de Deus,
discernir as coisas espirituais, recebendo ao Senhor Jesus por decisão própria?
Não estão certos os calvinistas ao afirmarem que isto é impossível?
Essa é uma pergunta muito interessante; e
possui uma resposta simples: Todos os calvinistas e os demais crentes em Cristo,
estão certos ao afirmarem que o homem alienado de Deus é incapaz de discernir
por si mesmo as coisas espirituais. A questão que se põe é: o que é exatamente
uma coisa espiritual? Elas existem certamente, e são segredos (revelados pela
Palavra) relativos a obra redentora do Senhor Jesus. Coisas que, aliás, os
próprios salvos de Corínto eram incapazes de
compreender pela sua falta de espiritualidade. O mesmo se aplica a muitas
igrejas de hoje, lamentavelmente. Mas, o caso que estamos tratando não se
refere a isso.
Eu não vou, amado leitor, discorrer sobre
este assunto porque está fora do nosso espoco; mas posso afirmar que a decisão
por Jesus, ou a compreensão que Jesus é o Filho Unigênito do Deus bendito, não
é nenhum mistério espiritual indiscernível. A revelação da Pessoa de Jesus
Cristo ao homem caído, não está incluída entre os segredos da obra de Cristo
(que são direcionados exclusivamente a nós).
Observando as Escrituras, vemos que Jesus
nunca alardeava ao povo que Ele era o Filho do Homem encarnado; mas quando Ele
era inquirido diretamente sobre o assunto, Ele jamais o negava. E os Seus
algozes, que estavam alienados do amor de Deus, compreendiam isso muito bem:
(ACF Jo 9:41) “E
disse-lhe Jesus: Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não vêem
vejam, e os que vêem sejam cegos. E aqueles dos fariseus, que estavam com ele,
ouvindo isto, disseram-lhe: Também nós somos cegos? Disse-lhes Jesus: Se
fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o
vosso pecado permanece.”
(ACF Lc 22:66-71)
“E logo que foi dia ajuntaram-se os anciãos do povo, e os principais dos
sacerdotes e os escribas, e o conduziram ao seu concílio, e lhe perguntaram: És
tu o Cristo? Dize-no-lo. Ele replicou: Se vo-lo
disser, não o crereis; E também, se vos perguntar, não me respondereis, nem me
soltareis. Desde agora o Filho do homem se assentará à direita do poder de
Deus. E disseram todos: Logo, és tu o Filho de Deus? E ele lhes disse: Vós
dizeis que eu sou. Então disseram: De que mais testemunho necessitamos? pois
nós mesmos o ouvimos da sua boca.”
Note que Lucas fala no Livro dos Atos dos
Apóstolos, que os homens do Sinédrio resistiam
livremente ao Espírito Santo no testemunho de Estêvão.
Isto denota livre-arbítrio e o seu mau uso, neste caso. A raiva que os algozes
de Estêvam sentiam ao escutá-lo denota que eles
discerniam muito bem a acusação de Deus que era dirigida a eles. Discerniam e
livremente resistiam as acusações.
(ACF At 7:51-57)
“Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre
resistis ao Espírito Santo; assim vós sois como vossos pais. A qual dos
profetas não perseguiram vossos pais? Até mataram os que anteriormente
anunciaram a vinda do Justo, do qual vós agora fostes traidores e homicidas;
Vós, que recebestes a lei por ordenação dos anjos, e não a guardastes. E,
ouvindo eles isto, enfureciam-se em seus corações, e rangiam os dentes contra
ele. Mas ele, estando cheio do Espírito Santo, fixando os olhos no céu, viu a
glória de Deus, e Jesus, que estava à direita de Deus; E disse: Eis que vejo os
céus abertos, e o Filho do homem, que está em pé à mão direita de Deus. Mas
eles gritaram com grande voz, taparam os seus ouvidos, e arremeteram unânimes
contra ele.”
Devemos nos lembrar que enquanto Homem
encarnado algumas pessoas adoravam ao Senhor Jesus ainda que o Espírito Santo
não tenha sido derramado sobre a terra. Ou seja, adoravam ao Senhor Jesus por
uma fé própria; mesmo sem a influência efetiva do Espírito. Isso denota uma
capacidade, mesmo limitada, de discernimento. Mas há discernimento o bastante
para salvá-los. E o Senhor Jesus sendo Deus encorajava essa adoração:
(ACF Mt 15:25) “Então chegou ela, e adorou-o,
dizendo: Senhor, socorre-me!”
(ACF Jo 9:38) “Ele
disse: Creio, Senhor. E o adorou.”
Portanto, o homem caído pode sim discernir a
Pessoa de Cristo, mediante uma pregação evangelística.
E pode, porque a revelação da Pessoa de Cristo não é nenhum mistério espiritual
indiscernível. Portanto, ao negar a Cristo, o homem é
de fato indesculpável perante Deus.
O Endurecimento Dirigido e o Endurecimento Deliberado
Anteriormente, provamos que o livre-arbítrio existe; e
mais: por resultar em uma contradição nas Escrituras, provamos que é impossível
Deus selar alguém através de um dom sem dar a ele, Seu Espírito Santo (que é o
verdadeiro Selo). Por sua vez, a Pessoa do Espírito Santo, nos é concedida se
recebermos a Jesus como nosso Senhor e Salvador pessoal. Considero a expressão
“é impossível que Deus faça”, não uma arrogante negação de Sua gloriosa
onipotência. Longe de mim tal pecado! Na verdade, esta expressão no contexto do
nosso estudo, representa o fato de que Deus não pode contrariar a Si mesmo e a
Sua Palavra eterna.
Agora, amado leitor, vamos entrar num assunto que constitui
a base dos exemplos bíblicos no qual o calvinismo se apóia. De fato esses
eventos existiram e, compreendidos corretamente, serão para nós exemplos da
vontade de Deus, para glorificação de Seu santo Nome. Esses exemplos são de
pessoas que foram aparentemente endurecidas por Deus. Vamos começar pelo Faraó
citado no Êxodo:
(ACF Ex 4:21-23) “E disse o Senhor a Moisés: Quando
voltares ao Egito, atenta que faças diante de Faraó todas as maravilhas que
tenho posto na tua mão; mas eu lhe endurecerei o coração, para que não deixe ir
o povo. Então dirás a Faraó: Assim diz o Senhor: Israel é meu filho, meu
primogênito. E eu te tenho dito: Deixa ir o meu filho, para que me sirva; mas
tu recusaste deixá-lo ir; eis que eu matarei a teu filho, o teu primogênito.”
(ACF Ex 7:4-5) “Faraó, pois, não vos ouvirá; e eu porei
minha mão sobre o Egito, e tirarei meus exércitos, meu povo, os filhos de
Israel, da terra do Egito, com grandes juízos. Então os egípcios saberão que eu
sou o Senhor, quando estender a minha mão sobre o Egito, e tirar os filhos de
Israel do meio deles.”
Como temos confiança de que a Palavra de Deus não pode
errar, podemos tomá-la como ela está escrita sem temor. Pois, no ensino
paciente do Espírito Santo, podemos ver que ela não se contradiz. Entretanto,
ao considerarmos o que as Escrituras dizem sobre uma determinada ação de Deus,
devemos ter em mente os atributos divinos que as próprias Escrituras afirmam
existir. Neste caso específico, devemos nos lembrar que tal é a santidade de
Deus, que Ele mesmo não incita (e não pode incitar) ninguém ao pecado:
(ACF Tg 1:13-14) “Ninguém, sendo
tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal,
e a ninguém tenta. Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua
própria concupiscência.”
Ao afirmamos que Deus endureceu Faraó por Suas próprias
mãos, introduzimos uma dificuldade intransponível; pois se Faraó pecou por
rebeldia contra o Senhor, foi Ele mesmo que o incitou a isso. E isso é
impossível. A questão que se põe não é a
existência ou não do livre-arbítrio de Faraó; mas, sim, a santidade de Deus.
Confiando que a Palavra não falha, podemos compreender o que ocorre a luz de um
outro texto:
(ACF Rm 1:28) “E, como eles não
se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um
sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm;”
O que está em conformidade com o texto de Tiago que diz que
por sua própria concupiscência, o homem se entrega ao pecado.
A partir de então, podemos nos questionar: se Deus não
incitou Faraó ao pecado, como ele se endureceu? Sabemos que o pecado é
concebido em nós pela nossa própria vontade. E se Faraó era rebelde contra Deus
é porque ele mesmo se achava um deus (uma crença tipicamente faraônica). Essa
era a origem das tentações de Faraó. Houve, porém, momentos
Se o amado leitor observar as Escrituras em Ex 12:30-33 e
Ex 14:4-5, vai perceber uma nova e repentina mudança no coração de Faraó. Esta
mudança repentina é a chave para compreendermos o que aconteceu. Porque sabemos
que é Deus que controla os eventos; isso inclui a medida de nossas tentações. A
luz do que já aprendemos e lemos nos textos sagrados, podemos facilmente
concluir que o endurecimento citado no texto, ocorreu porque o próprio Deus
entregou Faraó a uma grande tentação de seu próprio coração; de modo que Deus sabia
que ele iria cair. O que está em conformidade com o trecho
Em outras palavras, o erro não procedeu de Deus. Mas com
sabedoria, Deus comandou a medida da tentação sobre Faraó. Repentinamente Faraó
caiu pelo que havia no íntimo de seu coração (o desejo de ser deus e manter-se
no trono); e Deus permitiu que isso ocorresse. Como também Ele decidiu quais
seriam as conseqüências dessa rebeldia. O pecado é de Faraó; a permissão é de
Deus. Por isso que se diz que Deus endureceu o coração de Faraó; não que Ele o
tenha incitado ao pecado, mas porque Ele pode dirigir a intensidade dos
eventos.
A resistência do homem contra Deus, está sob o controle do
próprio Deus. Neste caso, está servindo para a revelação da glória de Deus aos
hebreus. Deus faz com que Faraó endureça, para que os hebreus vejam Seu
livramento milagroso; o livramento de um sofrimento que o próprio pai deste
Faraó criou e ele perpetuou. E Deus faz isso também para vingar os sofrimentos
de Seu povo; pois da mesma forma que o Egito matou os bebês do sexo masculino
dos hebreus, Deus matou os primogênitos egípcios. Isso é justiça. Porém, isso
foi circunstancial; se deu apenas para aquela geração dos egípcios a um grupo
específico de pessoas.
Outro exemplo de endurecimento dirigido é o caso da
rejeição dos judeus ao seu próprio Messias. Neste caso, como já foi
demonstrado, o endurecimento serviria para depois da glorificação do Senhor
Jesus, quando Seu nome seria revelado aos gentios.
Sabendo que Sua morte seria por mãos dos sacerdotes judeus,
o Senhor propositadamente falou por parábolas ao povo; para que os fariseus e
os saduceus, ouvindo a Palavra, não se convertessem
entendendo-a. Isso possibilitou a obra redentora de Cristo por meio de Sua
morte. Mas, isso foi também circunstancial; a Palavra mostra, logo após a
ascensão do Senhor e o início do ministério dos apóstolos, a vontade de Cristo
de salvar Seus próprios algozes (At 4).
Porque Deus endureceu a Faraó? Porque Deus endureceu a
Israel? É simples: Porque a medida do nosso pecado têm limites aos olhos de
Deus (Is 1:14). O Egito comandou um genocídio contra os hebreus e fadigou o
povo em meio a uma insana escravidão; e o Egito merecia vingança por isso. E
Israel foi rebelde durante séculos . O assassínio de Cristo, o próprio Filho
Eterno de Deus é uma prova; tanto que as Escrituras testificam contra aquela
geração de Israel:
(ACF Is 65:2) “Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo
rebelde, que anda por caminho, que não é bom, após os seus pensamentos;”
Essas circunstâncias excepcionais da parte de Deus, foram motivadas
por uma contínua rebeldia livre; ou seja, por uma contínua obstinação humana em
manter seu coração deliberadamente endurecido contra Deus. Este é o
endurecimento deliberado, ou livre, do homem contra Deus. Então: o
endurecimento dirigido, não é alguma tentação ao pecado incitada por Deus – o
que é impossível – ou uma condenação eterna; mas é uma tentativa divina de
humilhar o homem para fazê-lo voltar-se a Ele. E isso é expresso como se segue:
(ACF Ex 36:26) “E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro
de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos
darei um coração de carne.”
Porém nem todos se convertem e, na sua morte, são
condenados eternamente.
Um outro exemplo seria o próprio Judas Iscariotes.
Ele conviveu três anos e meio com o Senhor; ele ouviu palavras da boca do
Senhor que nós jamais conheceremos; ele viu obras das próprias mãos do Senhor,
das quais nenhum homem após aquela geração viu. Isso denota que Deus fez o
possível para convencê-lo. Mas uma vez que ele não se convertia Deus,
lamentando, o deixou entregue nas mãos de Satanás (Jo
13:21, Jo 13:27 e Lc
22:48). E, ainda assim, ele teve uma oportunidade para orar e pedir perdão a
Deus; mas ele preferiu suicidar-se (Mt 27:4-5).
Portanto, na nossa persistência no pecado, endurecemos a
nós mesmos; mas é Deus que permite todas as coisas que o homem vive.
Jacó e Esaú
(ACF 9:11-13) “Porque, não tendo eles ainda nascido, nem
tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição,
ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), foi-lhe dito
a ela: O maior servirá o menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a
Esaú.”
No capítulo anterior, vimos que podemos confiar na Palavra
de Deus, pois ela jamais se contradiz. Entretanto, atentando para o ensino do
Espírito Santo, devemos sempre relembrar os atributos de Deus. Diante desse
versículo e de posse do que já aprendemos, podemos inferir calmamente que os
sentimentos de Deus, são diferentes dos sentimentos dos homens. Um famoso
exemplo é o arrependimento divino, que é expresso como se segue:
(ACF Gn 6:6) “Então arrependeu-se
o Senhor de haver feito o homem sobre a terra e pesou-lhe em seu coração.”
Esse é o início da história de Noé
e o dilúvio universal. Olhando para este versículo acima, tendemos a pensar que
Deus compartilha do sentimento humano de arrependimento. Porém não é assim;
pois, se Deus arrepende-se como um homem, nós não existiríamos hoje. Porque o
arrependimento humano demanda mudança de atitude. Deus não mudou sua atitude
preservando a família de Noé; Deus não mudou Sua
atitude preservando um casal de cada espécie terrestre. Diante disso, podemos
inferir que o arrependimento divino não é compartilhado pelo homem, porque é
distinto dele. E observando atentamente, podemos ver que é mais parecido com uma lamentação humana.
Outro exemplo é o amor de Deus. Deus não compartilha do
amor humano, pois este está sujeito a rancores e mágoas. E o ser humano, não
consegue amar indistintamente, pois somos carregados de preconceitos. Algumas
vezes, o ser humano nem consegue amar! O amor de Deus não é assim: é
incondicional, fiel, abundante, paciente, etc.
Portanto, podemos concluir que o ódio citado não
corresponde ao ódio humano. Do contrário, Esaú teria morrido; isso porque o
ódio humano é essencialmente homicida. Mas isso ficará mais claro, a medida em
que esmiuçarmos a história de Esaú e Jacó (Gn 25-33).
Como Esaú era o primogênito e desenvolveu-se como um exímio
caçador, seu pai Isaque tinha uma preferência amorosa
por Esaú. Isso era terrível, pois fazia com que Jacó sofresse muito; de modo
que Jacó, movido de inveja, enganou a Esaú para tirar-lhe a primogenitura. A
qual, aos olhos de Jacó, era o motivo pelo qual seu pai Isaque
tinha predileção pelo seu irmão. Agora se o amado leitor atentar para as
atitudes de Esaú, verá que ele mesmo inviabilizou a eleição divina. Porque Esaú
casou com duas hetéias, que foram o desgosto dos seus
pais. E o fato de Esaú ter casado com descendentes de heteus,
impossibilitou qualquer preferência de Deus por Esaú; pois Deus queria que
Israel saísse puramente da família de Abraão.
Isso só confirma o desprezo que Esaú sentia pelas coisas de
Deus; pois Esaú conhecia a história de seu pai, mais do que Jacó. Esaú sabia
que de seus familiares Deus faria uma nação abençoada. E a primogenitura de
Esaú era a confirmação disso; mas o desprezo de Esaú pelas coisas de Deus
(mostrada na forma como Esaú abriu mão de sua primogenitura), motivou a
rejeição de Deus contra ele. Portanto, este ódio é mais parecido com uma
rejeição humana, do que com o ódio humano. Tanto que o autor de Hebreus,
milhares de anos depois, viria a dizer:
(Hb 12:16) “E ninguém seja
devasso, ou profano, como Esaú, que por uma refeição vendeu o seu direito de
primogenitura.”
Entretanto, como sabemos que Deus conhece e autoriza os
eventos desde a eternidade, podemos entender porque Deus deu a Rebeca conhecer
esses eventos futuros. Isso é demonstrado nos versículos anteriores de Rm 9:13, no início deste capítulo.
O amado leitor deve entender também que o fato de Esaú ter
sido rejeitado por Deus para a promessa foi um ato de justiça a Jacó; pois Jacó
foi, até certa medida, rejeitado pelo próprio pai. E Deus se compadece dos mais
fracos e não dos mais fortes (como em seu orgulho, Esaú deixou muitas vezes
transparecer). Era natural que Deus escolhesse Jacó; não porque ele merecia,
mas porque Deus se compadece dos mais fracos. Assim, Jacó pôde perceber que
ainda que fosse, até certa medida, rejeitado pelo pai, ele era amado
incondicionalmente por Deus. Agora imagine o quão trágico seria para Jacó,
amado leitor, se Deus escolhesse a Esaú, confirmando assim a predileção de seu
pai Isaque por Esaú!
Mas, Deus é mui digno de ser louvado! Pois, ainda que Esaú
tenha sido rejeitado, gerando o ódio deste, Deus restaurou a amizade dos dois
irmãos e eles, abençoados em suas trajetórias de vida, perdoaram-se mutuamente.
Glórias a Deus nas alturas! Bendito seja o nome do Senhor!
Portanto, está mais do que demonstrado que Deus não odiou
Esaú como o homem odeia a seus semelhantes.
Conclusão
● Deus ama o pecador de forma perfeita; não
existe rejeição, em vida humana, que proceda de Deus. Ela procede do pecador,
para sua própria destruição;
● Jesus morreu por todos, mas só os escolhidos
(ver demonstração) são salvos;
● Existe predestinação, mas ela é devido a
natureza atemporal de Deus. Os eventos estão determinados, mas eles são
essencialmente um conjunto de interações e força divina ativa, conhecidos e
permitidos desde a eternidade. Uma dessas interações é o livre-arbítrio humano;
● Os eventos, sendo definidos no contexto da
eternidade, não seguem necessariamente uma linearidade. Porque Deus pode vê-los
simultaneamente e instantaneamente; mas há, para Deus, distinção de passado, presente
e futuro, mesmo sob esse contexto;
● Existe livre-arbítrio, portanto a graça é
resistível;
● A resistência a graça, serve aos desígnios
de Deus, mesmo que não O agrade;
● É impossível que Deus coloque parcialmente
a fé no coração do homem para despertá-la futuramente. Isso exigiria a presença
do Espírito Santo;
● Deus tenta salvar o perdido, mesmo sabendo
que ele se perderá. Há um momento, no entanto, em que o Senhor já não opera
mais no coração deste homem, deixando-o que siga sua própria rebeldia;
● Os exemplos de endurecimento promovidos
pelo próprio Deus a determinadas pessoas, foram temporários e serviram a
propósitos específicos. E todos os exemplos foram sobre ímpios, na qual Deus
deixou que caíssem em seus próprios enganos. Todos os endurecimentos
deliberadamente promovidos tiveram, em comum, o cumprimento da obra de Deus e a
conseqüente glorificação de Seu Nome. Este tipo de endurecimento é uma
expressão da soberania e vontade de Deus. Os demais endurecimentos são conseqüências
de rebeldias livres, que provocam a cauterização da consciência no pecador;
● Portanto, o livre-arbítrio humano é uma
ferramenta de Deus, para a construção da História do homem. Uma História que
foi permitida e definida desde a eternidade.
*A doutrina de preservação dos santos não foi tratada
propositadamente, pois eu professo a fé batista. Isso, no entanto, é assunto
para um outro estudo.
Posfácio: Vendo os Frutos
(ACF Lc 6:43) Porque não há boa
árvore que dê mau fruto, nem má árvore que dê bom fruto.
Ainda que nos falte o conhecimento, podemos estar seguros
que o Espírito Santo, segundo as fiéis promessas do Senhor Jesus, nos guia a
toda a verdade. Ainda que não tenhamos todas as respostas, podemos estar
seguros que o Senhor não nos deixa confundidos.
A igreja primitiva já vivia os últimos dias. E eram dias
terríveis de apostasia; os gnósticos investiram
contra a Palavra de Deus, tentando falsificá-la. Os nicolaítas
tentavam introduzir doutrinas de apologia a sensualidade nas igrejas; e Satanás,
de todas as formas tentava destruir os santos. A obra de Deus produz o trigo;
mas na surdina da noite, o Adversário de nossas almas planta o joio. E na
Reforma não foi diferente. Assim como hoje não é diferente, apesar de que a
medida que se aproxima o Arrebatamento, o mundo fica cada vez mais violento e
os santos cada vez mais iludidos com um outro Evangelho da avareza e vaidade; e
frios em amor.
Calvino de fato revolucionou a Teologia. E ele fez uma
elaborada doutrina de predestinação que desafiou o entendimento de gerações de
piedosos homens de Deus. Entretanto, os frutos de um homem, revelam suas
verdadeiras aspirações e conseqüentemente, podemos atestar sua credibilidade
julgando sua suposta piedade. E Calvino não é aprovado nisso.
Calvino deixou que seu coração se enchesse de Satanás,
quando pactuou na morte, pela fogueira, de um homem a quem ele acusou de
heresia. Este homem, segundo os registros durante seus minutos finais de
sofrimento, clamou ao Senhor Jesus pedindo que o Senhor o recebesse em Seu
reino. Este homem era Miguel Servet, um médico espanhol.
Não interessa qual seja a heresia que Servet
tenha defendido, ou se de fato ele contrariava as Escrituras. Calvino mostrou
que jamais foi um convertido ao pactuar e participar ativamente no assassínio
dele, sendo seu principal algoz. E, se ele não era convertido, a Reforma
Protestante não foi para ele nada mais que uma oportunidade de solapar a Igreja
Católica na Europa e usurpar-lhe o poder político e espiritual (que ela jamais
teve ou deveria ter tido). E, de fato, nunca Calvino se arrependeu de seu
pecado.
E, este “reformador”, ironicamente vítima da Inquisição Católica
Francesa, não teve o pudor de instalar um versão
protestante da Inquisição, o Consistório em Genebra, Suíça. Esse Consistório,
perseguiu e matou várias pessoas; adotou métodos de tortura e conversões
forçadas, em nada distintas dos romanistas que assolaram a Europa durante a
Idade Média. Portanto, Calvino definitivamente não é digno de crédito.
É por esse vil exemplo, tanto de Calvino e seus seguidores próximos em
Genebra, quanto pelos romanistas, que a Europa Continental tem um sentimento
crescente de aversão às religiões, atualmente. Pois o nome do Senhor
continuamente blasfemado por esses falsos cristãos, que não sendo templos do
Espírito, eram na verdade templos do Inimigo. E isto foi a causa de muito das obras
satânicas que mergulhariam a França num sanguinolento Terror, na Revolução
Francesa; que destruiriam a fé de milhões de piedosos homens de Deus com o
Humanismo e o Darwinismo do Século XIX. E, que por fim, mergulharia o mundo nas
sombras das duas maiores guerras da História, no Século XX; cujas
conseqüências, somos até hoje, capazes de observar. Lembre-se, amado leitor que
todos esses problemas começaram naquele Continente.
Portanto eu oro para que o Senhor Deus tenha uma amorosa misericórdia
de nós, para que jamais a soberba e a vaidade desta vida enganem os nossos
corações. Pois, como dizem as Escrituras: “Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos”. E que Deus
conceda ao amado leitor, todo o entendimento e sabedoria, para que, cientes de
nós mesmos, possamos louvar ao Senhor com toda a humildade e dignificá-Lo com
toda a reverência, com o qual Ele é digno. Em nome de Jesus, amém.